terça-feira , 21 novembro 2017
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Vigilante do Amanhã – O Fantasma de Ghost in the Shell [Resenha]

Estreou hoje no país Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell,  a muito aguardada adaptação da obra homônima de Masamune Shirow (Masanori Ota). O filme apresenta a abordagem única, adequada para as telonas, da história que se tornou um ícone da ficção científica futurista e hipertecnológica. O que segue são opiniões sobre essa produção, spoilers serão evitados tanto quanto possível.

Ghost In The Shell é uma obra de estilo bem diversificado em cada uma de suas formas, mangá, anime, filme de animação… e isso deixou os fãs se perguntando qual seria a escolha dos produtores e roteiristas para o foco do filme desse ano.

No mangá de 1991 temos a protagonista Motoko Kusanagi, chamada também de Major, que é uma ciborgue feita para fins militares. Seu corpo é completamente sintético, mais poderoso e habilidoso que um ser humano comum, e sua personalidade é forte: extrovertida e brincalhona, inteligente e analítica. Suas habilidades são aplicadas pela ‘Tokyo’s Section Nine Security Force’, ou apenas Seção 9, uma equipe subordinada ao ministério da defesa que realiza missões contra cyber-terrorismo, escoltas políticas e busca de criminosos. O tom do mangá é uma desinibida sequência de missões que exploram um futuro onde a mente, o corpo e a cultura estão em seu âmago conectados com a tecnologia.
Seguindo o estilo cyberpunk, temos no mangá questionamentos políticos que nunca deixam de ser atuais: críticas à massificação das pessoas, sistemas econômicos que escravizam os empregados, distribuição de renda, burocracia e desvio de informações, além de uma exposição cômica e humorística de uma suposta revolução das máquinas.

Na animação de 1995 todavia, somos apresentados a personagens menos cartunescos e um foco mais emocional na mesma protagonista Major. Ela é distante e pouco emotiva, o que cria um contraste com seu colega Batou de personalidade mais evidente. As missões da Seção 9 são focadas na busca de um perigoso hacker chamado Puppet Master, capaz de invadir as mentes humanas e controlar suas memórias.
É uma animação que, junto com o respectivo Anime, trazem uma abordagem filosófica e inquisitiva sobre o que significa ser um humano. As questões existenciais que não passam de comentários rápidos no mangá tomam nessa animação a forma de uma busca da protagonista por sua essência. Ela não sabe quanto de si é sintético e quanto é humano, e enquanto a Seção 9 enfrenta o Puppet Master, a Major enfrenta sua próprias dúvidas.

Tendo isso em mente, podemos entender que o filme buscou um pouco de cada obra.
Vigilante do Amanhã não é uma adaptação fiel, não é uma sequência nem uma prequel, embora tenha traços de um filme introdutório. Não é um reboot, ou um remake, mas sim uma leitura que traz toda uma ambientação, personagens e foco redesenhados.
O visual é primoroso e de tirar o fôlego. Somos desde o início recebidos com uma Neo-Tokyo hipertecnológica, com hologramas gigantes pela cidade, implantes cibernéticos na vida cotidiana e uma complexa teia de fios e conexões criando nos ambientes o contraste entre o lado bonito da tecnologia e o lado sujo da poluição visual.
As cenas do filme são muito bonitas, desde o momento onde acompanhamos os procedimentos de criação do corpo sintético da Major, até as lutas, as cenas panorâmicas e o momento onde vemos o ‘Mergulho’ um procedimento onde memórias e informações são hackeadas.
Os personagens, com exceção dos protagonistas, tem pouca profundidade, mas ainda assim seu desenvolvimento está de acordo com o enredo, que não é realmente criativo ou inovador.

No filme a protagonista, interpretada por Scarlett Johansson, possui um cérebro humano e um corpo artificial, dessa forma temos através dela uma jornada em busca da essência que caracteriza a identidade humana. Assim como no mangá ocorrem conflitos burocráticos de interesse que a Seção 9 deve enfrentar, mas o objetivo principal no filme é a busca por um misterioso hacker que está assassinando pessoas e roubando informações, Kuze, interpretado por Michael Pitt.
Protagonistas secundários como Batou (Pilou Asbæk) e Aramaki (Takeshi Kitano) tem seus momentos, mas não tiram os holofotes da busca da Major por respostas.

Depois de todas essas informações expostas, é necessário dizer que um dos grandes pecados do filme é a falta de inovação e a extração superficial de características de sua fonte. Ghost In The Shell foi podado e transformado num filme dentro dos moldes que já conhecemos, como os clássicos Blade Runner e Matrix (ainda que Ghost in The Shell  tenha sido uma forte influência para esse último).  Em nenhum momento ocorre uma grande reviravolta e ainda quando os segredos do passado da Major são expostos, fica no ar a sensação que era fácil saber o que estava por vir.
Quando comparado com, por exemplo, Ex_Machina: Instinto Artificial (2015), fica evidente o quão simples são os questionamentos do filme. Todavia, a adaptação para as telonas compõe muito bem a obra total de Ghost in the Shell.

Vigilante do Amanhã é um filme simples, visualmente impressionante, mas que dificilmente fará o telespectador se segurar na poltrona.

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Sobre Augus

Augus
Escritor, músico, contemplador do design do universo e sempre estudando a forma como o destino se organiza. Apreciador sincero da arte e filosofia, e crítico imparcial da cultura nerd mainstream e underground, tenho colaborado com o Projeto JoKenPo desde sua criação.

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